Um mês de Toronto

Um mês de Toronto

Escrevi esse post de manhã, mas algo aconteceu agora a noite que preciso registrar. Estava no terminal quando meu ônibus chegou e a motorista, uma senhora, avisou que ela teria que esperar pela polícia quando chegasse na rua “tal”. Ela disse que, com sorte, a polícia já estaria lá e a viagem não atrasaria muito, mas se não estivesse, nós teríamos que aguardar. Ela só não explicou o que a polícia queria com ela. Quando chegamos na tal rua, um carro de polícia já aguardava no cruzamento. Ela parou o ônibus no ponto e aí que entendemos o que estava acontecendo. Uma senhora, passageira, estaria perdida e a polícia estava lá para levá-la pra casa. Pacientemente, a motorista explicou para a senhora que ela iria pra casa e foi com ela até o carro dos policiais, com quem conversou e explicou tudo. Depois, quando voltou pro ônibus, a motorista explicou que a senhora estava há duas viagens no ônibus e que deveia sofrer de demência. Aparentemente, não conseguiram fazer contato com a família e aí a polícia iria com ela até sua casa para verificar a situação toda. Ai, ai, igualzinho… mas não vamos comparar.

Tem um mês que eu saía do nosso apartamento no Rio sem saber se eu voltaria a estar ali como moradora; tem um mês que, a caminho do aeroporto, fui parada numa blitz, só pra ser lembrada de um dos motivos que me fazia deixar o país; tem um mês que me despedi dos amigos de sempre, dos meus pais e de outras pessoas queridas; tem um mês que meu coração ficou pequenininho, já antecipando esse período sozinha aqui.

E tem um mês que eu não sei o que é sentir medo na rua; que eu posso ir e vir a hora que quiser (limitada apenas pelo horário do transporte público); que eu posso ir ao Starbucks, praticamente, a qualquer momento; que eu não sei o que é ser empurrada pra entrar ou sair do metrô. Enfim, tem um mês que eu vivo num lugar civilizado de verdade.

Nesse tempo, eu:

- Aprendi a sempre ligar a TV no CP24 para saber qual a temperatura e qual a previsão do tempo para o dia;
- Aprendi a valorizar o sol e o calor, mas ainda sem sentir saudade do inferno que é o Rio 40, mas já sei que, aqui, a regra é aproveitar cada minuto de sol e calor ficando na rua.
- Entendi que canadense tem garagem em casa para fazer bagunça, pois todos estacionam na rua (driveway) e, quando as garagens estão abertas, dá pra ver que não caberia um carro lá dentro, de tanta coisa que tem entulhada.
- Confirmei que os canadenses são muito simpáticos e que, invariavelmente, alguém te aborda na rua para fazer comentários dos mais diversos, desde elogiar sua roupa a te oferecer um Tylenol pra sua gripe.
- Conheci uma parte das dezenas de brasileiros que estão por aqui, a maioria com filhos, e confirmei que o Brasil está perdendo gente muito legal, pois todos são super atenciosos, simpáticos e receptivos.
- Vivenciei as maravilhas de ter uma máquina de lavar no estilo “tombamento”, que não enrosca suas roupas todas, e, principalmente, a secadora de roupas. Em duas horas suas roupas estão limpas, secas, macias e, se você esticar assim que tirar da máquina, passadas.
- Comi muita sopa, tanto Campbell, quanto de outras marcas.
- Descobri que o pão de forma daqui é muito mais encorpado do que o daí.
- Vivenciei a experiência de ter passarinhos catando minhocas no jardim da minha rua e, em 15 minutos de ônibus, assistir a um filme em 3D numa tela IMAX. Ou seja, é a banalidade da vida de interior convivendo com a última tecnologia de uma metrópole.
- Fiz o meu currículo no estilo canadense e consegui uma entrevista de emprego mesmo sem ter aplicado pra ela.
- Tirei a carteira de motorista G1.
- Descobri que aqui não tem pão de queijo, mas tem “cheese tea biscuit” no Tim Hortons e croissant de queijo em diversos cafés.
- Descobri que Cinnabon é bom!
- Constatei que cães são bem-vindos no metrô, nos ônibus e shoppings. E não precisa ser pequenininho, não.

From Canada

Foi muita coisa que aconteceu nesse tempo, não dá pra falar de tudo.

Hoje, apesar de a noite não ter sido boa por conta da saudade, acordei sem vontade de ir embora. Cada vez que estou andando pelas ruas daqui, que vejo tudo isso tudo em volta, confirmo minha vontade de vir pra cá. Agora, por exemplo, estou escrevendo esse post no metrô, o que seria totalmente impossível no Rio. Ao que tudo indica, esse plano será adiado por mais um ano, mas pelo menos já deu pra sentir que não é nenhum bicho de sete cabeças vir pra cá, que é totalmente viável.

Provavelmente, vou embora nesse próximo final de semana. Vou com o coração na mão, mas já está na hora de ir encontrar o marido. Ficar longe assim, apesar de ser perfeitamente possível, não é legal, ainda mais num momento em que grandes decisões estão sendo tomadas. Preciso ir atrás de alguma ocupação pra esse próximo ano, já que não é uma boa idéia voltar pro meu trabalho e perder a licença. Vou fazer curso de francês e um curso online de algum college canadense para chegar aqui com um mínimo de educação formal que eles reconheçam. Além disso, acho que vou fazer um curso da UofT de escrita para negócios. Pelo menos vai me dar um certificado para mostrar numa entrevista futura, já que essa foi uma preocupação. Enfim, não dá pra desanimar, tem que manter a cabeça erguida e torcer pros planos, finalmente, se concretizarem ano que vem.

Envie por e-mail.

Escrito por K em Tuesday, April 28, 2009, às 23:11.

17 Comentários (OBA!) »

  1. Comment by Taty

    Ah querida… por mais que existam diversidades, por mais que vc esteja se sentindo sozinha, veja pelo lado bom, vc ainda está vendo os lados positivos.. e que não são poucos…
    e se vc gostou do “test drive” muito provável que (mesmo que nada seja perfeito) tudo corra bem no seu retorno no próximo ano….
    beijos e parabéns pelas conquistas… Taty

  2. Comment by Andréa

    Amiga, é isso aí, nada de desanimar. Agora é pegar os limões e fazer uma bela torta… (nada de limonada, que é muito azeda!). Não sei se aparece a hora no comentário (acho que não), então dá só uma sacada na minha situação: 5h04 da matina e ainda não consegui pregar o olho de tanta ansiedade. Hoje fizemos a consulta com o Dr. Alexandre (Alexandru… sei lá) e foi tudo bem, mas não conseguimos fazer nenhum exame, só amanhã. E com os milhares de coisas que temos que fazer, além da ansiedade pelo final do processo, simplesmente não consigo dormir. Amanhã não sei como vou trabalhar. Vai ser overdose de café pra eu me manter acordada! Ah, me diz uma coisa: nenhuma notícia sobre a entrevista da semana passada? Você volta no final de semana mesmo sem um retorno deles? Vamos ver se nos falamos pelo Gtalk.
    Beijos!
    Andréa

  3. Comment by Taís

    Boa sorte!!!

    Temos e somos na vida o que esperamos e lutamos a ser!

    Vai dar tudo certo!
    :)

    Taís

  4. Comment by Renata

    Deu uma vontade de estar logo aí, e queria tanto que vcs tb estivessem…
    Mas os olanos pro ano que vem são ótimos, seus cursos, o francês. Tudo vai ser bom e na hora certa vcs vão pra ficar.
    Beijos

  5. Comment by Cris schultz

    Oi k,
    que post lindo. Dá mais vontade de viver tudo isso. Olha só, sei que vc sabe do que vou dizer, mas não custa reforçar: adiar sonhos não significa abandoná-los. Você está certíssima em fazer a opção de voltar e estar perto do seu marido. O sonho do Canadá não será completo se não for vivido por vocês dois. Quando vocês voltarem irá chegar por aí de novo com outro ânimo, mais motivada, pq já perdeu o medo, não será mais desconhecido. Na próxima chegada estará mais confiante, forte e com certeza, com o seu amor ao lado, para juntos crescerem, alcançar os sonhos.
    Que a paz esteja com vocês
    sucesso..
    Cris Schultz

  6. Comment by Mariana

    Ai… adorei o post! Que bom saber das suas percepções e ler esta parte, em especial: “já deu pra sentir que não é nenhum bicho de sete cabeças vir pra cá, que é totalmente viável”. Isso dá um ânimo e uma vontade grande de experimentar as coisas por aí também (especialmente os croissants!!!).

    K, um ano passa rapidinho, vc sabe disso! O sonho foi adiado mais uma vez, mas acho que vcs deveriam experimentar À DOIS essa vidinha maravilhosa daí, pra só então decidir se é Brasil ou Canadá. Boa sorte!

    Beijos, Mari

  7. Comment by Octavio

    K,
    um mes passou rapido, voando, e olha que foi repleto de acontecimentos. Um ano nao eh nada, voa tambem. Ainda mais com novos projetos e a perspectiva de voltar pra Toronto.
    Grande beijo

  8. Comment by Larissa

    Olá
    Vc. descreveu de forma linda suas experiências por aí.
    Deve ser difícil ir, querendo ficar. mas, em um ano é possível se preparar melhor, além de que, quem casa, quer estar junto. Separado é difícil demais.
    Abraços e tudo de bom p. vc!!

  9. Comment by P

    Parabéns pelo pique! É isso aí mesmo. Sempre temos uns momentos de baixa enrgética e emocional, mas depois vislumbramos claramente o porquê de nossas escolhas.
    []s

  10. Comment by Elaine Cavalheiro

    Passou rapido neh? =) Eu te desejo muito sucesso e paz em qualquer lugar que vc esteja! bjs!

  11. Comment by cibele

    Como a gente acostuma rapido com o que ‘e bom nao ‘e mesmo??rsrs
    Voce vai ver a saudade que vai sentir quando for embora…eu senti no mesmo dia…uma falta do Starbucks….hahaha
    Mas se antes de ir embora voce quiser comer um pao de queijo, pegue um Street Car na Dundas e desca na interseccao da Dufferin. L’a tem uma loja que se chama Pao de Queijo ‘e uma padaria de portugueses e coma um big pao de queijo que eles tem l’a….claro que nao ‘e tao bom quanto o nosso, mas quebrou muito galho quando eu sentia vontade….rsrs
    Aproveite cada minuto!
    Beijos
    Cibele

  12. Comment by Paulo Mello

    É incrível como vocês tem a capacidade de fazer as coisas de forma diferente… Primeiro foi o caso de usar o visto quase no finalzinho, agora isto de voltar ao BR para só retornar depois de um ano…
    Desculpe a brincadeira, foi só uma desculpa pra fazer um comentário.
    De qualquer forma eu sei quem deve ter gostado muito desta notícia: Sua mãe.
    Abraços,
    PM

  13. Comment by Jeanne

    Cada vez que leio seus posts fico impressionada com a quantidade de coisas e informacoes que vc consegue em tao pouco tempo. Eu parecia uma barata tonta quando cheguei aqui.
    Vc viu como os canadenses sao legais? Por isso nao entendo quando dizem que eles sao fechados, frios. So conheci gente boa ate agora, felizmente. Todos muito prestativos, brincalhoes e bem educados.
    Qto aos caes (e bikes tb) tem um horario restrito para andar com eles no TTC, mas vi que o povo nao respeita muito. O que sei eh que eles podem circular entre 10 da manha e 3 da tarde, e depois das 6pm, acho. No horario de pico nao sao permitidos.
    bjs

  14. Comment by Renato

    K,
    Sempre fui fã do seu blog enquanto vocês estavam aqui: você escreve muito bem e tem uma visão super ponderada das coisas. Mas no fundo ficava torcendo para vocês irem logo pois não via a hora de ver seus relatos da vida no Canadá, ainda que temporário. Expectativa mais do que atendida! Muitos bons seus posts, virei mais fã ainda. Parabéns e boa sorte, independente do caminho que seguirem!
    Renato

  15. Comment by Flavia

    Oi K, como ce percebe, estou lendo (quase!) todos seus registros ..e esse aqui TA DE-MAIS (tb falei isso do ultimo ne ? rssrsr) … eu tb gosto de registrar as cosias , e qdo ce ‘fala’ (escreve) , me sinto eu, rsrsrsrsr.
    Desde a ultima (e minha 1a) reuniao com vcs, comecei a me entregrar mais à isso tudo, acho q ainda rola um pouco de medo … mas de q ??? de tudo e de nada ne ..eheheheheheh
    Enfim, to curtindo demais suas 1as experiencias e tao me ajudando a vislumbrar algimas coisas..bjos e tudo de bom pra vc…. Flavia

  16. Comment by Mimi

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  17. Comment by http://nickbowditchtravel.com/atuo-insurance.html

    If only there were more clever people like you!

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