Reflexões aéreas

Reflexões aéreas

Pois é, estou voltando. Parece até que vim fugida, de tão rápido que foi. Na verdade, eu já estava semi-preparada para vir há algum tempo. Só que aí apareceu a entrevista. E aí muita coisa mudou.

Quando a entrevista apareceu, eu tinha acabado de me recuperar do último vírus canadense que peguei. No final de semana anterior, fiquei em casa dodói sem poder sair. Nesses momentos você só quer voltar pra sua vidinha, quando as coisas eram mais fáceis e você já sabia o que esperar, além de poder contar com ajuda de marido, mãe, pai,… Então eu estava com muita vontade de voltar, só que o PR Card ainda não tinha chegado. Foi aparecer a entrevista pros cartões chegarem.

Desde que me recuperei, o clima também deu uma melhorada - apesar de ter chovido bastante -, fazendo uns lindos dias ensolarados, ótimos para sair pela rua andando, sozinha ou acompanhada. Com a saúde boa, tudo fica mais fácil de suportar, inclusive a saudade. Apesar de não ter uma rotina estabelecida, as coisas já estavam entrando nos eixos e cada vez eu gostava mais da cidade.

E aí passou a semana que eu mesma tinha me dado de prazo para voltar. Supostamente, a semana em que eu deveria ter recebido uma resposta lá da firma. Não recebi, mas várias pessoas já me disseram que demora mesmo e que, normalmente, levam o dobro do tempo que eles dizem inicialmente para entrar em contato. Teoricamente, eu deveria esperar mais uma semana. Mas aí…

Aí eu meio que cansei de ficar deixando a vida na mão dos outros. Ora bolas, já aguardei o prazo que eles deram - enough is enough. Tem anos que espero, espero e, na verdade, ainda tenho mais um ano de espera pela frente, mas o que estiver nas minhas mãos decidir, vou tomar as rédeas da situação.

Só que eu estava me sentindo tão bem lá, de andar por aquelas ruas, de ver as tulipas - a cada dia apareciam mais -, de descobrir todas as coisas. Já nem sabia mais se queria ir ou ficar. A saudade do marido era enorme, mas já tinha me conformado com ela. Realmente não sabia o que me faria mais feliz, voltar ou não.

Falando em felicidade, dizem que o imigrante jamais será 100% feliz, pois deixou um passado inteiro para trás que, gostando ou não, faz parte da sua formação e é importante pra sua vida. Então não terá mais o acesso à família e aos amigos, sentirá saudade daquela comida, daquele lugar, daquelas saídas. Isso, claro, é compensado, mas não é substituído, pelo mundo novo que foi escolhido. Ao mesmo tempo, se o imigrante volta à origem, passará a ter saudade do que foi a sua vida no outro lugar, das relações que deixou por lá. Não tem mas jeito, se ficar o bicho pega, se correr o bicho come. É o preço que se paga.

E eu me perguntei quão feliz estava. Dava pra dizer que eu estava muito feliz. No entanto, tinha uma sensação estranha de que aquilo não me pertencia. (Calma, povo, não comecem as interpretações de que a K acha que não merece ser feliz, não.) Eu mereço ser feliz, sim, eu e todos nós merecemos. Acredito nisso. Só que a sensação era de que eu estava vivendo a vida de outra pessoa. Ou, talvez, que fosse outra pessoa vivendo a minha vida.

Por quê? Não sei. Pode ser porque eu já sabia que a ida não era definitiva (ainda) e me apegar demais aquilo tudo pudesse significar um sofrimento maior durante a espera que ainda tenho pela frente. Isso até faz sentido, mas acho que foi mesmo a ausência do marido. Parafraseando Vinícius de Morais, os solteiros que me perdoem, mas viver a dois é fundamental. Quando se faz essa escolha, de casar, você tem que se comprometer com a causa.

A sua rotina passa a ser coreografada com a do outro. Não deve ser em função dele, mas, sem dúvida, estarão conectadas. Com o marido em outro país, eu não conseguia estabelecer uma rotina pra mim, o que estava me deixando exausta. Não ter uma rotina pode ser altamente empolgante, para uns mais, para outros menos. Pra mim, confesso que gosto de “todo dia fazer tudo sempre igual”. Estava, literalmente, exaurida pelas atividades diárias e, sem o abraço dele no final do dia, não tinha cama e sono que me descansassem.

Realmente, sem ele lá, ficava faltando um pedaço. Apesar de eu curtir as coisas, não era o mesmo do que curtir com ele. Então o que eu fiz foi fazer a opção de não estragar esse momento. Eu quero curtir toda a felicidade de cada experiência no Canadá e, sem o marido, isso não é possível. Quem vive a dois sabe que é capaz de ter momentos felizes sozinho, mas que momentos plenos e completos só são possíveis com o outro. Se não, não é a vida que você escolheu. Não é você. Sozinha, lá em Toronto, não era eu.

Estou feliz por estar de volta pro meu aconchego, não vejo a hora de ficar deitadinha assistindo DVD, bem agarrada (um programa tão banal e que fez uma falta enorme), porém uma parte de mim ficou lá naquela terra, não tem jeito. Doidera, né? Querer voltar porque não era eu e voltar deixando uma parte de mim! Estar dividida desse jeito tem um  grande significado: já posso me considerar uma imigrante (de carteirinha - PR Card - e tudo!). Isso era exatamente o que eu queria! Minha sorte é que o abraço que vou receber lá no setor de desembarque do Galeão vai mais do que compensar esse pedaço que ficou lá.

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Escrito por K em Saturday, May 2, 2009, às 13:33.

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9 Comentários (OBA!) »

  1. Comment by Larisse

    Tenho acompanhado seu blog quase diariamente, suas experiências serviram de inspiração para os meus sonhos que estão demorando a se realizar.
    Achei linda a forma como vc descreveu a falta “do marido”…… sei exatamente o que quer dizer, seremos todos imigrantes muito felizes em Toronto … daqui a um tempinho….
    Grande abraço e tudo de bom!!!! Larisse.

  2. Comment by Taty

    Ah, eu acho que vc fez a escolha certa…. não adianta forçar uma situação para vc…. e vc verá, um ano passa num piscar de olhos….
    beijos e seja bem vinda as terras brasileiras….
    taty

  3. Comment by Mariana

    K, concordo completamente com vc! Lugar de esposa é junto do marido e vice-versa. Um ano é um bom tempo e muita água vai rolar nesse período. Exemplo: vc pensa em voltar ao Canadá com um pimpolho a tira-colo? ;)

    Beijos e tudo de bom na nova (meio antiga) vidinha maravilhosa de sempre!

    Mari

  4. Comment by Renata

    Seja benvinda de volta.
    Concordo totalmente que seu lugar é ao lado do Julio. Eu não iria sem Dory nem a pau!
    Um ano passa rapidinho…
    Bjs

  5. Comment by Rosi

    Amiga, acompanho seu blog faz um tempão… nunca te vi tão carente, é bom voltar pro colo do maridão mesmo. A K que eu conheço não é assim…rsrs
    Não se martirize por ter deixado o seu sonho um pouquinho de lado, logo vcs poderão curtir esse lugar juntinhos. O melhor mesmo é estar com quem a gente ama, seja onde for…

    Curta o colo do maridão…

    Bjos

    Rosi

  6. Comment by Ronaldo

    Seja muito bem vinda.

    E não se preocupe, Toronto não vai a lugar nenhum.

  7. Comment by Octavio

    K,
    que experiencia fantastica voce teve. Indo ou vindo, ficando ou voltando, o importante eh estar junto de quem se ama e com que se projetou todo um futuro, onde quer que seja. Na me vejo sem a Bia tambem. Sem falar dos pequenos. Sues textos sao muito bons, adoro ler tuas coisas. Abraco e Beijo

  8. Comment by jeanne

    Camila, até hoje às vezes tenho essa sensação de estar vivendo a vida de outra pessoa. No fundo acho que é isso mesmo, a gente muda muito depois que chegou aqui. Às vezes comento com o Pedro que não tenho muita saudade do Brasil, mas da gente, de como éramos lá. Tenho saudade da minha zona de conforto tb. Aqui a gente mata um leão por dia, mas nem por isso deixa de ser uma vida boa.
    Vc tem razão, a gente de divide sim, mas tem que aprender a conviver com isso.
    Bjs

  9. Comment by Rod

    Olá K, conheci seu pouco faz uns dois dias e tenho acompanhado a sua rotina, sempre tive o sonho de morar fora também e tenho pensado em retomar esse sonho, mas realmente vida de imigrante não é fácil…anyway, só quero desejar sorte a você em seu caminho e dizer que essa página é muito útil para todos aqueles que têm a imigração em mente.
    Abs

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